O padrão alimentar do brasileiro mudou nas últimas décadas. Num mundo moderno e imediatista, alimentar-se rapidamente e a baixo custo tornou-se um hábito entre as pessoas. Também existe uma maior oferta de alimentos industrializados ricos em gordura, sal e açúcar. Mas eles não são os únicos responsáveis pelo atual cenário da obesidade infantil. "Cada vez mais as crianças consomem alimentos processados, fazem refeição fora de casa e quase não praticam atividade física", lembra a nutricionista Manuela Dias, pesquisadora da ProTeste.
Segundo ela, de fato, os alimentos industrializados são grandes vilões da boa alimentação, especialmente no que se refere ao público infantil. Refrigerantes, sucos (em pó, caixinha), biscoitos, alimentos congelados, sobremesas prontas e salgadinhos acabaram se tornando os preferidos da garotada e, sem muita informação, os pais acabam oferecendo os alimentos em demasia, tanto nas refeições principais quanto na hora do lanche.
A situação preocupa não só pelo fato de que os alimentos naturais estão sendo cada vez menos consumidos, como pelo excesso de aditivos químicos presentes nos industrializados. Prova desse abuso está no resultado das pesquisas feitas pela ProTeste junto aos supermercados. Foram analisados 31 produtos consumidos por crianças na hora do lanche, sendo 16 biscoitos salgados, 12 doces (balas, chicletes, chocolate e gelatinas) e três bebidas (refrigerante e suco). Todos apresentavam algum tipo de aditivo. Um deles, a Tartrazina, tem potencial alérgico tão forte que a Justiça passou a exigir que os produtos que contêm a substância devem trazer essa informação no rótulo.
Manuela explica que os aditivos são substâncias não nutritivas que, quando adicionados ao alimento, alteram sua textura, cor, tempo de conservação e aparência. A quantidade de aditivos que pode ser consumida em um dia é calculada em função do peso. Como as crianças pesam menos, elas facilmente consomem mais do que o limite estabelecido como seguro em um dia.
Para ajudar as crianças a ficarem longe dos aditivos, Manuela recomenda observar a lista de ingredientes dos produtos, evitando os que fazem mal. De preferência, opte por lanches saudáveis, incluindo frutas, pães (integrais de preferência), queijos brancos processados (que não necessitam de refrigeração depois de abertos), barra de cereais e sucos naturais. Se for levar biscoito, não coloque o pacote inteiro. Prepare porções com cinco ou seis unidades. Se o alimento levado na lancheira for perecível, ele deve ser acondicionado em bolsas térmicas ou colocado na geladeira, até a hora do recreio. Quando a criança for comprar lanche na cantina, oriente-a a não consumir frituras, refrigerantes e doces.

Segundo a legislação, os rótulos de produtos alimentares pré-embalados devem trazer informações completas, o que inclui nome do produto, lista de ingredientes, quantidade, identificação da origem, número do lote, prazo de validade e instruções para o uso, se necessário, além da informação nutricional.
Informações complementares
A lei permite que os fabricantes incorporem nos rótulos alguns atributos que os tornem mais atraentes ao consumidor. Assim, você pode ver no rótulo expressões (em português ou em inglês) que visam a diferenciar o produto em relação aos similares, exaltando suas características de redução ou incremento de nutrientes. Na hora da escolha, compare com outro produto similar e veja se a redução ou o incremento prometido condizem com a tabela nutricional.
Não é obrigatório, mas deveria ser
Algumas informações não são obrigatórias por lei, mas a ProTeste as considera tão importantes que deveriam constar em todos os rótulos. São elas: Data de fabricação; número de telefone do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) ou endereço do site de contato; tempo e forma de conservação do produto após abertura da embalagem.
Além do que deve constar nos rótulos, a legislação diz também o que não deve constar. Na hora da compra, fique atento a rótulos que atribuam ao produto qualidades que não possam ser comprovadas; indiquem que o alimento tem propriedades terapêuticas ou medicinais; aconselhem o uso do produto para melhorar a saúde, para evitar doenças ou comoação curativa.
Alimentos não são remédios. Por isso, antes de consumir qualquer produto que prometa redução de colesterol, fortalecimento de ossos e músculos, reforço de memória ou combate ao câncer, converse com seu médico.
Fonte: Manuela Dias/ProTeste
Entrevista
As informações estampadas nas embalagens dos produtos referem-se às necessidades nutricionais de adultos ou crianças?
Os valores diários do rótulo nutricional são baseados em dietas de 2 mil ou 2,5 mil calorias. Portanto, se referem às necessidades nutricionais de adultos. Um bolinho doce embalado, que é direcionado ao público infantil, tem seu valor de referência baseado em um adulto. Ele tem 157 calorias e, considerando-se que um adulto consome cerca de 2 mil calorias, o rótulo diz que isso representa 8% das calorias que podem ser ingeridas no dia. Ocorre que, para uma criança, que consome cerca de mil calorias/dia, 157 kcal representam 16% do que ela consome, ou seja,o dobro.
Vale a pena incluir pós multivitaminados na alimentação das crianças?
Alimentos vitaminados são bem-vindos, mas polivitamínicos nem sempre são necessários e só devem ser usados com orientação profissional. O ideal é estimular uma alimentação balanceada rica em frutas e verduras.
Os macarrões instantâneos são liberados para crianças?
Nem para crianças nem para adultos. Esses alimentos devem ser consumidos com moderação, pois têm uma quantidade muito grande de sódio e calorias.
Bolos prontos, biscoitos e sucos artificiais podem ser incluídos na lancheira?
O ideal é dar preferência a alimentos naturais, feitos em casa, mas temos que avaliar também a viabilidade disso. Boas opções de lanches práticos são: castanhas, biscoitos sem recheio, sucos de fruta (pode ser o de caixinha), iogurte, torradas, queijo, barras de cereais e sanduichinhos com salada.
Refrigerante diet e guloseimas adoçadas artificialmente podem ser consumidos por crianças?
O ideal é evitá-los. É mais importante e representativo para a alimentação infantil não exagerar nas quantidades, evitar frituras e doces, do que usar adoçante e produtos diets.
Quantas vezes por semana doces e refrigerantes devem entrar no cardápio infantil?
O mínimo possível. Não é necessário estabelecer um dia da semana porque isto gera ansiedade e faz a criança comer até sem vontade, só porque é dia. As guloseimas e refrigerantes devem ser consumidos esporadicamente, em festas ou quando a criança realmente manifestar desejo intenso (claro que dentro de um limite). Lembrando que nunca devemos estocar esse tipo de alimento em casa.
Alimentos com corantes podem causar alergias em crianças?
Em casos raros sim, mas na maioria das vezes o problema está na irritação que eles causam na mucosa gástrica.
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