O Bem Viver detalhou cada item e mostra várias curiosidades importantes para sua saúde. Com letras minúsculas, ora no fundo, ora de lado. É o fabricante quem decide onde fica a tabela de informação nutricional e a lista de ingredientes de um produto industrializado. Crianças em alfabetização, adultos com os primeiros sinais de que óculos já são bem-vindos e idosos que se virem se para eles aquilo é importante. Antes fosse essa a única dificuldade. Encontrada a informação, é hora de decifrá-la.
No ano passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou aos países que adotassem medidas para reduzir o impacto da propaganda de alimentos pouco nutritivos sobre as crianças, uma vez que suas escolhas influenciam em até 80% as compras da família. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) correu atrás e ainda em junho publicou a regulação RDC nº 24, estabelecendo que as propagandas de alimentos com doses elevadas de açúcar, gorduras, sódio e bebidas de baixo teor nutricional contivessem advertências sobre os danos que seu consumo excessivo podem causar à saúde.
Seria a hora de os macarrões instantâneos com os mais simpáticos personagens infantis virem acompanhados do aviso: “o (nome comercial do produto) contém muito sódio e, se consumido em grande quantidade, aumenta o risco de doenças cardiovasculares”.
Campeão no quesito sal – um pacote de 85g de macarrão instantâneo tem incríveis 1.999mg de sódio, cinco vezes mais o estabelecido como excessivo –, comum a decisão judicial que travou a estréia da resolução em dezembro de 2010, ganhou tempo até desfilar como alerta que todos merecem ler.
Enquanto não se pode contar com medidas como essa, a melhor saída é a informação. O Bem Viver foi ao supermercado, acompanhado de um nutricionista, para identificar as principais dificuldades e corrigir as falhas mais comuns dos consumidores na hora de ler uma informação nutricional. São dicas importantes para escolher, do ponto de vista nutricional, produtos comuns da lista de compras do brasileiro, além de um glossário das expressões que parecem falar de nutricionista para nutricionista.
Talvez assim a estudante Camila Garcia Campos (foto), de 15 anos, consiga mais vitórias em sua meta por uma vida mais saudável. No ano passado, em uma aula de biologia, ela viu a professora extrapolar o programa para ensinar aos alunos lições básicas de nutrição. “Ela fez tanto terror sobre os alimentos industrializados que comecei a olhar as informações dos rótulos e mudei alguns hábitos, cortando o refrigerante e priorizando coisas mais naturais. Só com isso emagreci quatro quilos”, comemora.
Os súditos da rainha estão com a faca e o queijo – magro – na mão. É do Reino Unido que se espalha um modelo eficiente de transmissão da informação: o semáforo nutricional. O sistema aposta em uma rotulagem com círculos coloridos, sempre em destaque na embalagem, em que cada cor corresponde a uma concentração de um determinado nutriente para que o consumidor possa escolher, de forma imediata e sem complicações, os alimentos mais saudáveis.
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) até propôs a adoção do sistema no Brasil, mas a realidade é que ainda precisamos sair para caçar como gato, mesmo sem saber domá-lo. E, com a população despreparada para entender quando tal nutriente é bom ou ruim, as jogadas de marketing da indústria de alimentos ficam ainda mais fáceis e muita coisa parece ser o que não é. Um exemplo são as porções. No pacote de uma determinada pipoca de micro-ondas uma porção tem 94 calorias, 13g de carboidratos, 2g de proteínas, 3,9g de gorduras (sendo 1,8g de gorduras saturadas), 3g de fibras e 218mg de sódio. Mas tudo se refere a 25g de pipoca, ou uma colher e meia de sopa. Quem come só isso?
O desconhecimento do público com os termos adotados também faz presas fáceis. Daniela Perdigão, nutricionista e assessora técnica do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais (Consea-MG),alerta: “Hoje,quase não existe iogurte nas gôndolas dos supermercados. Estamos tomando soro de leite, provavelmente o que sobra da preparação dos queijos. Na embalagem, vem escrito que é iogurte, mas, se a pessoa ficar atenta ao teor de proteína na tabela, vai perceber que ele diminuiu, assim como os nutrientes. Na lista de ingredientes, outra prova: no lugar de simplesmente leite, aparecem opções como permeado de leite. Só é iogurte se o primeiro ingrediente da lista for leite”.
CRIANÇAS Com rígido controle da alimentação desde os 5 anos, quando descobriu ter o colesterol alto, Maria Vitória Marques Barroso, de 12, já entendeu que só pode comer três biscoitos integrais previstos em sua dieta no horário do lanche. No supermercado, sob olhar atento da mãe, que se desdobra atrás dos produtos menos maléficos para a filha, sem privá-la totalmente do sabor de infância de um bolo de chocolate, tudo parece mais fácil. Mas em um lanche com as colegas ela admite ter dificuldades para selecionar a opção adequada. “É minha mãe quem sabe escolher os produtos. O que sei é que não posso comer chips. Preciso tomar rumo, porque meu colesterol já foi muito, muito alto.” Se a definição do que Vitória pode ou não comer for baseada nos valores de referência das tabelas, o problema começou cedo. As normas estabelecidas pela Anvisa adotam como referência a dieta de um adulto, mesmo quando o público-alvo do produto são as crianças. Segundo pesquisa do Idec, aquele mesmo macarrão instantâneo riquíssimo em sódio indica que uma porção do produto representa 19% do total de energia que se deve consumir em um dia, mas para uma criança de 6 anos a mesma porção representa 25,8% das calorias de um dia inteiro.
“É minha mãe quem sabe escolher os produtos. O que sei é que não posso comer chips. Preciso tomar rumo, porque meu colesterol já foi muito, muito alto”
Maria Vitória Barroso, de 12 anos, estudante
CARBOIDRATOS
Quem deve ficar atento: Diabéticos e obesos
Excesso pode causar: Doenças metabólicas relacionadas ao excesso de insulina em pessoas
predispostas
PROTEÍNAS
Quem deve ficar atento: Pacientes com insuficiência renal
Excesso pode causar: Sobrecarga na função renal e cálculos renais em pessoas predispostas
COLESTEROL, GORDURAS TRANS E SATURADAS
Quem deve ficar atento: Cardiopatas e pacientes com dislipidemia (aumento de colesterol e triglicérides)
Excesso pode causar: Doenças cardiovasculares e diabetes
FIBRAS
Quem deve ficar atento: Diabéticos, obesos, pacientes com constipação intestinal e dislipidemia
Excesso pode causar: Diarréia
SÓDIO
Quem deve ficar atento: Cardiopatas, hipertensos e pacientes com insuficiência renal
Excesso pode causar: Retenção de líquido, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares
Fonte: Anvisa e Instituto Mineiro de Endocrinologia
O rótulo de um alimento industrializado tem duas partes. Uma traz informações gerais sobre o produto – o que é, quem produz, ingredientes, lote, prazo de validade e modo de utilização. A outra é a própria tabela de informações nutricionais, com valor calórico, quantidade de macro nutrientes (carboidratos, proteínas e gorduras), alguns micro nutrientes (vitaminas e minerais) e fibra, tudo calculado pela porção definida.
De olho nisso, a dona de casa Marilda Salomé, de 49 anos, compra sempre o mesmo pão de forma light com sete grãos. “Escolho em função do gosto e das calorias”, afirma. Segundo o nutricionista Marcus Ávila, do Instituto Mineiro de Endocrinologia, esse é o erro mais comum. “As pessoas se prendem muito ao valor calórico mas não identificam a origem dessas calorias. Os carboidratos, proteínas e gorduras são os responsáveis pelo valor calórico do alimento. Mais importante que olhar a quantidade de calorias, portanto, é saber de onde vêm e o tamanho da porção calculada para elas.”
Segundo o especialista, cada grama de carboidrato ou proteína fornece quatro calorias, contra nove calorias de cada grama de gordura. Se três alimentos diferentes fornecem 200 calorias cada, mas um é rico em gordura, outro em proteína e o terceiro em carboidrato, apesar do mesmo valor calórico eles atuam de forma diferente no organismo e o rico em gordura, provavelmente, será mais prejudicial. De forma geral, na hora de escolher entre dois produtos, a orientação é priorizar o que tem mais baixo valor de referência para gorduras saturadas, gorduras trans e sódio, e mais alto para fibras. Na necessidade de um desempate é que entra o valor calórico.
Marilda Salomé recebe instruções do nutricionista Marcus Ávila, do Instituto Mineiro de Endocrinologia, que alerta para as quantidades de gordura saturada, trans e sódio
Se cada vez que for às compras o consumidor se dedicar a escolher uma classe de alimentos, logo terá a lista certa do que comprar. O processo é simples: com os dois produtos em mãos, atribui-se um ponto ao vencedor em cada critério. Por exemplo: o produto A tem dois pontos por ter menos gordura trans e saturadas. Mas o B, além de menos sódio tem mais fibras, merecendo os mesmos dois pontos. A decisão, então, fica para a caloria. A melhor opção, nesse caso, é o que tem os menores índices.
Mas esse maior acesso à informações também não deve virar fixação. Segundo o endocrinologista Geraldo Santana, diretor do Instituto Mineiro de Endocrinologia, o organismo, em condições normais, sabe lidar com eventuais excessos ou falta de nutrientes, vitaminas e minerais. “A pessoa não precisa ficar obstinada com os números. O objetivo de se informar quanto às quantidades necessárias é para ficarem mais próximas deuma alimentação adequada no dia a dia, exigindo menos esforço do corpo nesse trabalho de compensação, que nem sempre pode estar funcionado perfeitamente.”

PARTICULARIDADES O administrador Rodolfo Moraes, de 50 anos, com predisposição genética para o diabetes, tem outro método de escolha. “Caloria não é tão importante, olho mesmo é a lista de ingredientes para ver se o produto tem açúcar.” Em dieta – ele já perdeu 13 quilos desde setembro do ano passado – na hora de comprar iogurtes Rodolfo também verifica se o carboidrato e a gordura saturada é elevada. “Não faço a compra só para mim, e sim para toda a família. Mas estou sempre priorizando os lights.”
O nutriente observado vai depender do caso. Segundo Geraldo Santana, pessoas em dietas para emagrecimento e diabéticos devem observar o carboidrato e quem tem dislipidemia, as gorduras saturadas e o colesterol. Para estimular o crescimento em crianças e prevenir ou tratar a osteoporose em adultos, a atenção deve ser no cálcio e na vitamina D. E para cardiopatas, hipertensos ou pessoas com insuficiência renal, é o sódio que merece vigilância. As fibras, por outro lado, têm papel central em quase todos os casos. “Melhoram o diabetes, reduzem o colesterol, aumentam a saciedade e atenuam a constipação intestinal.”
O administrador Rodolfo Moraes tem predisposição genética para diabetes. Então, se preocupa mais se o produto tem ou não açúcar do que se tem muitas calorias

Em dieta de manutenção depois de emagrecer 14 quilos, a advogada Diana Uchôa Torres Lima, de 30 anos, está atenta às tabelas de informação calórica, mas se queixa da sua falta de clareza. “Tem embalagem de 100g em que adotam a porção de 80g. Quando o produto é muito grande justifica dividir em porções menores, mas nesse caso não vejo sentido. Acabamos tendo que fazer contas e fica difícil. A tabela não é de fácil compreensão. É preciso estar realmente disposta, pois são muitos dados.” (CC)
A advogada Diana Lima já perdeu 14 quilos com dieta, mas se queixa da falta de clareza das tabelas nutricionais
Acidulantes: aditivos químicos que modificam a sua acidez ou melhoram o sabor dos alimentos. Por controlar o pH, evitam a ação de micro-organismos e podem aumentar a durabilidade do produto. O uso excessivo pode provocar cirrose hepática, descalcificação dos dentes e dos ossos.
Antioxidantes: aditivos que previnem a deterioração dos alimentos pela oxidação. Os mais usados são o ácido benzoico, vitaminas A e E, nitratos e nitritos. Seu excesso está relacionado a alergias, distúrbios gastrointestinais, dermatite, hipersensibilidade e câncer.
Corantes: adicionados para substituir cores perdidas durante a preparação ou para tornar os alimentos mais atraentes. Podem ser naturais ou sintéticos.
Espessantes ou estabilizantes: Aumentam a viscosidade do produto e estabilizam emulsões. Pode ter ação laxante.
Edulcorantes: presentes principalmente em alimentos especiais ou com restrição calórica, em substituição ao açúcar. Os mais usados na indústria são o aspartame, o ciclamato de sódio e a sacarina sódica.
Flavorizantes: responsáveis por “imitar”o sabor natural de um produto, mas podem causar alergias.
Fenilalanina: substância importante para o metabolismo e para o bom funcionamento do cérebro. Para os portadores de fenilcetonúria, doença genética caracterizada pela incapacidade de degradar a fenilalanina, é tóxica. Por estar na estrutura química do aspartame, pode aparecer em alimentos dietéticos e lights.
Gordura interesterificada: com os alertas sobre os riscos de consumo da gordura trans, a indústria de alimentos criou um novo método de tornar óleos vegetais sólidos, a interesterificação. Por ainda ser pouco conhecida, não existem estudos suficientes sobre seu impacto no organismo, mas alguns já mostraram correlação com a resistência à insulina.
Gordura trans: tipo específico de gordura presente em alguns alimentos que contém gordura vegetal ou
derivados do processo de fritura emóleo vegetal, como margarinas, biscoitos, salgados, sorvetes. Uma brecha na legislação permite constar “livre de trans” nos rótulos se na porção existir quantia igual ou inferior a 0,4g.
Glúten: proteína presente em cereais, principalmente no trigo. É responsável pela famosa “liga” da massa, favorecendo seu crescimento e consistência. Pessoas portadoras de doença celíaca apresentam uma hipersensibilidade ao glúten e não podem consumi-lo.
Umectantes: mantêmoalimento úmidoemacio. Os antiumectantes têm ação inversa e são utilizados em alimentos que necessitam se manter sempre secos e crocantes, como biscoitos e salgadinhos.
Fonte: Marcus Ávila, nutricionista do Instituto Mineiro de Endocrinologia
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