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Qual é o limite do corpo?

Com participação de Guilherme Oliveira, nutricionista esportivo [mais]

É difícil definir até que ponto o ser humano suporta atividades extremas. O jornal Estado de Minas foi atrás de atletas que se superam em busca de adrenalina e felicidade

A resposta é tão diversa quanto as pessoas que se propõem a responder essa pergunta. Para alguns, dedicar uma hora, três vezes por semana, a uma atividade física é o máximo. Outros não veem problema em treinar todos os dias. Há quem corra cinco quilômetros e esgote as energias, enquanto os maratonistas ainda têm fôlego de sobra. A grande diferença entre esses perfis não está apenas no condicionamento físico, mas também na forma como encaram o limite apresentado pelo corpo e na própria predisposição para atividades extremas. Enquanto para muitos esse é o ponto de chegada e marca o fim do treinamento, para um grupo de aficionados por adrenalina é apenas o início de uma batalha travada com a mente para ir além e fixar novos desafios a serem superados.

É por conta dessa briga que parece não ter fim que a enfermeira e atleta Carla Goulart, de 38 anos, ainda não foi capaz de definir qual é o seu limite. Daqui a duas semanas, ela vai passar por mais uma prova de fogo em busca dessa resposta. O cenário não poderia ser mais inóspito: o Vale da Morte, deserto no estado norte-americano da Califórnia, onde a temperatura pode chegar facilmente aos 50 graus centígrados com umidade que gira em torno de 30% a 40%. Serão de 30 a 40 horas correndo com paradas apenas para ir ao banheiro. Até mesmo as refeições serão realizadas ao longo do percurso de 135 milhas, o equivalente a 217 quilômetros. “Acho que todo mundo tem limites. A diferença é que quando eu os supero, crio novos”, afirma.

Carla não está sozinha no que, para quem houve sua história, parece ser uma grande loucura. A jornalista Daniela Santarosa, de 37, e o empresário Fernando Nogueira, de 55, também competem nas chamadas ultramaratonas – provas com distância acima de 42 quilômetros – ao redor do mundo e reconhecem que, mais do que vontade, há uma predisposição para esse tipo de atividade. “É uma fórmula diferente em que a pessoa tem mais resistência do que velocidade. Tem relação com a genética, mas também envolve muito treino, dedicação, foco, força de vontade e um pouco de teimosia”, afirma Fernando. Para Daniela, a vibração no momento exato da conquista também dá início a uma série de questionamentos. “E agora? Qual será a próxima?”

Atletas de alta performance travam uma luta diária para melhorar seu desempenho e testar os próprios limites e especialistas alertam para o perigo da dependência

“Nunca estou satisfeita com o que conquistei. Sempre acho que dá para ir além.” A frase da ultramaratonista Daniela Santarosa, de 37 anos, resume a forma como esses atletas encaram os limites. Determinados a se desafiar cada vez mais, eles estabelecem rotinas de treinamento que parecem ser viáveis apenas para super-homens. A enfermeira Carla Goulart, de 38, chega a correr 250 quilômetros na semana – o equivalente a 35 quilômetros por dia – no auge dos treinos e não tira um dia de descanso. “Estou me preparando para a prova no deserto da Califórnia. Para simular a temperatura e umidade que vou enfrentar, estou treinando de uma hora e meia a duas horas por dia em uma câmara de climatização na UFMG, que chega à temperatura de 54 graus centígrados e umidade de 30% a 40%. Exatamente o clima de deserto.”

Daniela também tenta viver com antecedência as condições da competição e chega a correr 50 quilômetros na praia para vivenciar as piores situações possíveis de terreno e clima. Entre os maiores desafios enfrentados até hoje está uma prova de 24 horas ininterruptas sob uma esteira, quando completou 170 quilômetros. Além do êxtase da conquista, perdeu cinco unhas do pé durante a prova. O advogado Thiago Torres, de 32, que se prepara para sua primeira prova de triatlo, acorda todos os dias, inclusive nos fins de semana, às 5h30. Tudo para cumprir as obrigações da profissão o mais cedo possível e ter tempo para treinar no fim do dia. “Também cortei o açúcar do cardápio, assim como refrigerantes, sucos industrializados, glúten e álcool”, conta. Mas o que justificaria tantos sacrifícios?

Franco Noce, professor-adjunto do Departamento de Esportes da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), garante que existem várias teorias motivacionais que explicam esse tipo de comportamento. “Primeiro, que as atividades físicas moderada e de alta intensidade liberam uma série de endorfinas no corpo que promovem sensação de prazer.” Essas substâncias são capazes de aumentar o bem-estar, o relaxamento do corpo e a satisfação com a vida. “Também tem o fato de que muitas pessoas são motivadas pelo desafio. Querer testar os limites é algo intrínseco e elas passam a ser motivadas por isso”, acrescenta Noce.

Quando sentem os benefícios que esses desafios proporcionam, o nutricionista esportivo Guilherme Oliveira explica que essas pessoas se dispõem a fazer o que Thiago e todos os outros atletas e amadores fazem e que poucos compreendem. “Eles se propõem a dormir mais, a não fumar nem consumir bebida alcoólica. Acordam cedo, fazem academia de segunda a sexta-feira e começam a estabelecer competições com elas mesmas. O prazer maior passa a ser isso”, observa. E é exatamente o que o advogado de 32 anos confirma. “Os impactos dessas mudanças me motivam diariamente a continuar e buscar novos desafios.”


ADIÇÃO A fixação e a determinação dentro do esporte podem levar a um fenômeno conhecido como addiction. “São sintomas de dependência que se assemelham ao de substâncias psicoativas”, afirma Franco Noce, professor-adjunto da UFMG. Marconi Gomes, presidente da Sociedade Mineira de Medicina do Exercício e do Esporte (Smexe), garante que, entre esses atletas, deixar a atividade de lado pode desencadear quadros de depressão e até distúrbios de comportamento. A ultramaratonista Carla Goulart reconhece que nos dias em que não treina o corpo sente. “Tenho insônia”, conta.

As sucessivas superações configuram um ciclo que se realimenta. “E aí configura-se o fenômeno da dependência. A pessoa precisa de doses cada vez maiores e mais frequentes para ter o mesmo nível de satisfação e prazer. Essas atividades promovem a liberação desses opioides endógenos, como a endorfina, que alimenta essa dependência”, explica Noce. O comportamento passa a ser direcionado para satisfazer essa necessidade.

Pode parecer algo prejudicial – e em alguns casos, diante dos exageros, realmente é – mas, entre as dependências possíveis, certamente está entre as menos degradantes. “Nem sempre essas pessoas precisam de algum acompanhamento psicológico porque estão bem e felizes dentro de sua atividade. Só se houver um cenário muito claro de prejuízo é que seria necessário”, pondera Noce. A família pode exercer papel fundamental na detecção precoce do abuso.


Corrida pela solidariedade O ultramaratonista Carlos Dias está correndo nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo para ajudar no combate ao câncer infantil. O desafio começou no dia 14 de junho e termina amanhã, em Vitória. Ele foi o único sul-americano a percorrer os quatro “desertos” mais extremos do planeta (Gobi-China, Sahara-Egito, Antártida-Polo Sul e Atacama-Chile). Durante seu trajeto, o atleta pretende sensibilizar a sociedade em relação ao combate ao câncer de crianças e adolescentes.

Predisposição do corpo para atividades intensas explica melhor desempenho. A genética, no entanto, não livra ninguém de lesões e complicações decorrentes do esforço excessivo

A predisposição genética para atividades extremas e de alto rendimento está entre os fatores que justificam o fato de algumas pessoas conseguirem correr centenas de quilômetros e outras não. Mas claro que elas não estão livres de lesões e complicações decorrentes do esforço excessivo. Fernando Nogueira, dono da empresa Ultrarunner Eventos, especializada na organização de provas de ultramaratona, reconhece que em 20 anos de corrida já teve todo tipo de lesão. “No pé, no joelho, quadril, mas consegui superar todas elas porque parei e o corpo recuperou. Mas se a pessoa insiste, essa lesão pode vir a ser crônica”, explica.


Nivaldo Baldo, fisioterapeuta com experiência em recuperação de atletas, alerta que tudo no corpo tem uma resistência genética linear e quando os limites são vencidos a pessoa passa a viver em uma fronteira perigosa. “Mas ela só vai saber aonde pode chegar, fazendo. Antes disso, porém, deve atentar para todos os exames que devem ser feitos”, orienta. Além do acompanhamento de um cardiologista experiente, é preciso fazer os exames infectocontagiosos, de esforço, de sangue, além de levantamentos sobre possíveis má-formações do cérebro, rim e outros órgãos. Sem esquecer da avaliação ortopédica. “A pessoa pode ter um aneurisma cerebral pequeno que pode se manifestar durante uma ultramaratona. Quem treina teimosamente sem passar por essa bateria de exames pode ter até morte súbita”, alerta.


Consciente sobre a importância de ser orientado por profissionais qualificados, o advogado Thiago Torres, de 32 anos, começa a perseguir seus objetivos no trithlo amparado por uma equipe, além de ficar atento aos exames regulares. “Saí de um amadorismo muito grande e hoje tenho acompanhamento com nutricionista, endocrinologista e um treinador”, conta. As temidas lesões, segundo Marconi Gomes, presidente da Sociedade Mineira de Medicina do Exercício e do Esporte (Smexe), são fruto de uma intensidade excessiva, à qual o corpo ainda não está preparado para ser submetido.


“Isso ocorre com pessoas que querem reduzir o tempo a qualquer custo, bater recordes e realizar muitas provas ao longo do ano. Submetem-se a estímulos muito intensos sem o descanso necessário, o que acaba aumentando o risco”, observa. Por isso, o ideal é fazer o treino correto para a prova que o atleta está disposto a encarar. “Muitas pessoas têm competições de mais de 100 quilômetros, mas nunca treinaram essa quilometragem”, afirma Marconi. O ideal é ir para o percurso pelo menos no mesmo nível da prova. “Se for abaixo, o risco de ter problemas é grande”, orienta.


As lesões são apenas algumas das dificuldades, mas o atleta ainda pode apresentar hipertermia (aumento da temperatura corporal) ou hipotermia (queda da temperatura corporal) e até comprometer o funcionamento renal. “Evitar perda excessiva de peso durante a prova e monitorar a hidratação também são fundamentais”, aconselha Marconi.




ALIMENTAÇÃO
Claro que a alimentação adequada deve acompanhar todo esse processo e pode ser uma arma também para evitar lesões. “A dieta é adequada a cada momento, tanto pré, durante e pós atividade física. Além de ajudar na performance, trabalha na prevenção de lesões ao fortalecer a parte muscular e reduzir o catabolismo, que seria a perda de músculos por conta dos treinos extenuantes”, explica o nutricionista esportivo Guilherme Oliveira. Por isso a importância de uma equipe multidisciplinar capaz de auxiliar o atleta a atingir seus objetivos.


Apesar de não ter nenhum patrocínio, Carla conta com um grupo de apoiadores que inclui o treinador, médicos e nutricionista e até um engenheiro responsável por pesquisar os equipamentos mais adequados para cada uma das provas que ela compete. “Ele levanta o tipo de material para uma prova no deserto, outro para as montanhas. Tudo isso varia de acordo com a prova e até a altimetria que será enfrentada”, explica.


São justamente os avanços na tecnologia de roupas, equipamentos e até suplementos que fazem com que os limites estejam sempre à prova. “Todos esses aparatos fazem com que o atleta venha se superando a cada dia. Diante dessa evolução, fica difícil falar em limites. Hoje não se sabe mais onde ele está”, reconhece Fernando Nogueira.




A cabeça comanda Mais do que o corpo, é a cabeça a grande responsável pelos resultados em competições extremas, como as ultramaratonas ou provas de triathlo. “O limite físico é ultrapassado apenas pelo psicológico”, garante a jornalista Daniela Santarosa, de 37, que pretende se dedicar às provas de ultrarrail, as corridas de longa distância na natureza. “Durante a prova, nossa briga mental é muito grande e a gente não vê a hora de chegar e aliviar esse embate”, afirma. Fernando Nogueira, que já participou de 65 ultramaratonas em toda a vida, arrisca dizer que 70% do resultado depende da cabeça e o restante, do condicionamento físico. “O psicológico pode derrotar um atleta”, afirma.

A ultramaratonista Carla Goulart, de 37, conta que durante a prova, se desliga de todo o entorno. “Sei que tem o cansaço, as dores no pé, mas não deixo que nada atrapalhe o meu desempenho. As dores no corpo desaparecem e não consigo enxergar nada ao meu redor”, conta. Fernando reconhece que para chegar nesse ponto é preciso estabelecer com clareza o foco e estar bem resolvido em relação aos objetivos. “Mas também há artifícios. Corro com música, que me transporta para outro mundo. É como um transe e como se eu estivesse fora do planeta”, descreve.

O professor-adjunto da UFMG Franco Noce explica que esse fenômeno de concentração extrema é chamado de flow felling, ou um estado de fluidez em que se atinge uma condição de plena concentração na atividade. “Mas isso realmente não é para qualquer um. Esses são seres humanos diferenciados”, pondera Noce. Inclusive no nível de desconforto e dor que são capazes de tolerar e na capacidade de resiliência que têm. “Do ponto de vista psicológico, é a capacidade da pessoa lidar com situações críticas e seguir em frente”, observa o especialista. Depois de correr 217 quilômetros sem parar, Carla afirma que precisa apenas de dois a três dias para retomar os treinamentos. “Já começo a trotar.”


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