::Setor de Nutrição

Fonte: Jornal Estado de Minas - Domingo, 14 de março de 2010
Caderno BEM VIVER - Matéria de capa

Mistura perigosa
Embora contenha uma lista de ingredientes saudáveis, especialistas estão preocupados com uso indiscriminado da ração humana
Vanessa Jacinto

Uns consomem para melhorar a função intestinal. Outros, para ganhar disposição e energia. Há, também, quem acredite que ela seja uma forma de garantir alimentação mais saudável, rica e balanceada. Contudo, o uso da ração humana virou moda, de fato, entre pessoas que querem emagrecer.

Comprada pronta ou preparada, misturando um ingrediente aqui e outro ali, a fórmula já é considerada a nova febre das dietas para perda de peso. A cabeleireira Helena de Fátima Izac, de 48 anos, usa o produto e o recomenda para todas as clientes do seu salão de beleza. “Sou a prova viva de que o resultado é positivo. Comigo funcionou mesmo”, afirma, orgulhosa.

Helena, que sempre teve dificuldade para emagrecer e se adaptar às dietas de baixa caloria, conta que conseguiu emagrecer tudo o que queria usando a ração e que agora só se preocupa em manter o novo peso.

Já a professora universitária Priscila Campello, de 36, que começou a fazer uso do produto há pouco mais de um mês com o intuito de queimar os quilinhos a mais, ainda não viu resultado algum. “Tento de tudo. Alguém me disse que a ração ajuda a perder peso e resolvi experimentar. Vou continuar insistindo para ver se vai dar certo.”

Nas embalagens dos principais fabricantes da ração, a descrição do produto lista ingredientes realmente saudáveis e ricos em fibras, como linhaça, farelo de trigo e aveia. A combinação seria capaz de fazer uma pessoa perder até oito quilos em um mês, além de ajudar a controlar o colesterol, aumentar a resistência orgânica e regular o intestino.

Com tantas promessas milagrosas, os especialistas já começam a se preocupar com o uso indiscriminado da ração e pedem cautela. De acordo com a nutricionista Josefina Bressan, coordenadora do Laboratório de Metabolismo Energético e de Composição Corporal da Universidade Federal de Viçosa (UFV), a ração não passa de mais um modismo. Apesar dos bons ingredientes, ela alerta que as quantidades indicadas – duas colheres de sopa – não produzem os efeitos nutracêuticos esperados para prevenir doenças. Mais de duas colheres podem fazer o alimento ficar calórico demais e, em vez de emagrecer, levar a pessoa a ganhar peso. “Além disso, não é conhecida a forma como os ingredientes da mistura reagem quando são ingeridos juntos. Podem haver interações perigosas no que diz respeito à biodisponibilidade dos nutrientes”, alerta.

A nutricionista Alice Carvalhais, do Instituto Mineiro de Endocrinologia, também condena o uso indiscriminado da ração humana. Ela acredita que a mistura pode até ser usada por alguns grupos de pessoas, mas sempre com orientação clínica e como complemento. Nunca substituindo refeições.

Contudo, essa costuma ser a prática de quem consome a fórmula. Helena, por exemplo, trocou a mais importante refeição do dia, o café da manhã, pela ração. Ela toma a farinha batida com leite, por volta das 7h, antes de sair para o trabalho e só vai comer de novo às 11h, hora do almoço. “Já virou hábito e agora me sinto muito melhor.”

Um coquetel de nutrientes
Consumidor deve buscar orientação nutricional antes de comprar ração humana, porque nem sempre o produto é padronizado

São cerca de 10 ingredientes, todos em pó natural: fibra de trigo, soja, aveia, gérmen de trigo, quinua, linhaça, gergelim, levedo de cerveja, guaraná e açúcar mascavo. Em algumas preparações, há quem misture colágeno, pó de maracujá e cacau.

Segundo a nutricionista Alice Carvalhais, do Instituto Mineiro de Endocrinologia, a ração humana não é padronizada e, por isso, cada uma pode apresentar uma composição diferente. A receita ideal varia de pessoa para pessoa e vai depender de sua necessidade especial, para surtir algum efeito.

Contudo, pior que não fazer efeito algum são as contra-indicações da ração humana. O guaraná em pó, por exemplo, pode não ser indicado por causar irritabilidade, insônia ou taquicardia e deve ser retirado da composição se ela for usada por gestantes ou pessoas com gastrite e úlcera estomacal.

O levedo de cerveja pode aumentar o apetite e a soja deve ser excluída em caso de intolerância. Segundo Alice, a aveia, que contém glúten, é contra-indicada para celíacos e o açúcar mascavo, definitivamente, não pode ser usado por quem é diabético. Para completar, a quinua, para pacientes renais, só pode ser usada com indicação.

Quem tem alergia à linhaça ou síndrome do intestino irritável também pode sofrer com efeitos colaterais como dores de cabeça e aumento das idas ao banheiro. Além disso, como o produto normalmente é consumido sem orientação, as pessoas não são informadas sobre a necessidade de ingerir muita água, justamente para evitar os fecalomas ou endurecimento das fezes.

O fato é que, sempre que o mercado lança novidades, há uma corrida dos consumidores, mas não existem soluções mágicas para quem quer emagrecer ou ter uma vida mais saudável, como afirma Josefina Bressan, do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

SEM MILAGRES Segundo ela, o preparo pode auxiliar na perda de peso e no equilíbrio das funções orgânicas, mas não se trata de um pó milagroso. “É mais uma dieta da moda e não tem nada que uma alimentação saudável já não preconize. Uma pessoa normal, que come todos os tipos de alimentos, não precisa de nenhum outro tipo de suplemento”, diz.

A dica serve para a professora universitária Priscila Campello. Além da vontade de emagrecer, outro objetivo que a levou a usar a ração humana foi a vontade de inserir na dieta alguns dos cereais que normalmente se recomenda para uma alimentação saudável e que ela não tem o hábito de comer. “Na forma de ração humana é mais prático. É só bater tudo no liquidificador e tomar”, diz.


Dicas sobre o uso

  • Não é ideal substituir almoço ou jantar pela ração humana.O melhor horário para usá-la é no lanche da tarde ou da noite. É importante lembrar que a ração humana age na absorção de açúcares e gorduras provenientes de outras refeições. Portanto, se for consumida em jejum, não terá essa função.
     
  • A ração humana só auxilia na perda de peso se for consumida em substituição a uma refeição mais calórica que ela. Para isso você deve saber quantas calorias tem a refeição normal e quantas calorias tem a ração que você usa.
     
  • Definitivamente, ela não é a solução para o emagrecimento. A prática de atividade física e alimentação balanceada são indispensáveis.
     
  • O nome ração humana é inadequado, pois passa a impressão de que ela contém todos os nutrientes necessários para uma alimentação balanceada. Contudo, ela é nutricionalmente incompleta e, por isso, não é aconselhável substituir toda a alimentação por ela.
     
  • Por ser rica em fibras, ela ajuda a regular as funções intestinais e, se usada com iogurte, fica ainda melhor, já que o iogurte ajuda a repor a flora intestinal. Para quem quer perder peso, o ideal é usá-la com água, pois vai ficar menos calórica.
     
  • A ração humana pode auxiliar no ganho de peso se for acrescentada na alimentação, além do que já é de costume. Exemplo: se o lanche era pão, queijo e leite, use pão, queijo e leite, mais ração humana. Ela não foi criada para engordar,mas tem calorias como qualquer alimento e só fará isso se for usada dessa forma. Para quem quer aumentar massa magra, a atividade física é essencial.
     
  • Em caso de diabetes, não deixe de acrescentar linhaça, farinha de maracujá e fibra de trigo à composição.
     
  • Não existe prazo estipulado para seu uso. Ela só deve ser usada em casos de pessoas que não consomem alimentos ricos em fibras, como frutas, verduras, legumes e alimentos integrais.
     
  • Não é ideal usar sem indicação, pois ela pode ter um efeito muito maior se tiver em sua composição alimentos específicos para cada caso.
     
  • Para saber se está usando os ingredientes corretos, consulte um profissional.

 

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