
Hábitos saudáveis devem vir de berço
Luciana Neves
Repórter
A reeducação alimentar e a prática de atividade física desde a infância são fundamentais para prevenir a obesidade. No entanto, de nada adianta os pais imporem regras se não derem o exemplo na mesa do almoço e no lanche da tarde, e não se envolverem na mudança de hábitos dos pequenos. A nutricionista clínica e esportiva Carmem Zita Pinto Coelho afirma que os pais devem, portanto, adotar uma alimentação saudável, rica em verduras, legumes, frutas e carnes magras, e limitar a ingestão de gorduras e de açúcares.
Ela afirma que qualquer pessoa
se acostuma com sabores diferentes. “Se a criança não entender a necessidade dos novos hábitos, fica difícil adotá-los”. Uma dica é dar exemplo de uma pessoa querida que teve problemas no coração, por causa do excesso de peso, ou mesmo lembrar dos ídolos do esporte, ressaltando a melhor resistência em função da dieta balanceada e dos exercícios freqüentes. A professora de educação física Maria Clara Barbosa Campos reforça que os pais também devem dar exemplo quando o assunto é atividade física. "Eles devem mostrar os benefícios da prática regular de exercícios”.
O endocrinologista Geraldo
Santana, diretor do Instituto Mineiro de Endocrinologia, ressalta
que as pessoas mais próximas da criança tios, babás, professoras, também devem colaborar para a perda e / ou controle de peso e jamais boicotar o novo programa alimentar. Geraldo Santana, que também é membro titular da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e da Associação Brasileira de Estudos sobre Obesidade (Abeso), afirma que a reeducação consiste na escolha orientada de alimentação balanceada, além de corrigir os principais erros alimentares. “As preferências, o paladar e a cultura de cada criança devem ser respeitados. É importante lembrar aos pais a questão da aparência dos alimentos e certos valores de consumismo que normalmente estão presentes nesta idade”.
Rejeição
Em todo o mundo, uma em cada dez crianças é obesa, totalizando 155 milhões. Nos últimos 20 anos, a obesidade infantil no Brasil triplicou. Hoje, quase 15% das crianças brasileiras têm excesso de peso e 5% são obesas. Na região sudeste, 12,9% dos adolescentes são obesos. Mais do que um problema estético, a obesidade em crianças e adolescentes pode acarretar enfermidades como diabetes, elevação do colesterol e triglicérides (gordura do sangue), hipertensão arterial, inicio precoce da arterioesclerose (endurecimento das artérias), problemas nas articulações e alteração do sono. O médico lembra que, além dos problemas de saúde, a obesidade traz uma série de barreiras sociais como rejeição
dos colegas, dificuldades de comprar roupas, praticar esportes e no caso de
adolescentes, de se envolver afetivamente.
Para reverter essas estatísticas, a professora de educação física Maria Clara Barbosa Campos incentiva a introdução de exercício, de forma lúdica, ainda na infância, para aprimorar as habilidades motoras, explorar as potencialidades, a socialização e a criatividade dos pequenos, além de promover o gasto calórico e prevenir o sobrepeso e a obesidade. “A atividade deve ser mantida para promover resultados”. Também são recomendados academias e clubes que tenham professores de educação física. O endocrinologista ressalta que os pequenos resultados devem ser valorizados e comemorados, já que mudar hábitos de forma duradoura é uma tarefa difícil e requer disciplina, tempo e paciência.
Remédio não
pode ser o principal tratamento
O tratamento da obesidade infantil deve ser principalmente nutricional e comportamental.
O endocrinologista Geraldo Santana afirma que o uso de medicamentos
deve ser considerado somente em situações especiais, quando os benefícios compensarem os eventuais riscos. Embora o tratamento medicamentoso da obesidade na infância e adolescente ainda seja polêmico, Santana ressalta que as pesquisas já demonstram alguns avanços. O orlistat, remédio que inibe a absorção de 30% gordura intestinal, já foi aprovado para o tratamento de adolescentes. “Provavelmente se mostrará seguro também em crianças”.
Outra medicação, a sibutramina, que age no sistema nervoso central, moderando a compulsão por doces e carboidratos, já possui alguns estudos demonstrando eficácia e segurança também em adolescentes, mas aguarda aprovação. Geraldo Santana afirma que o pediatra tem grande papel na orientação correta da alimentação, principalmente nos primeiros anos, na identificação precoce do excesso de peso e na correção
preventiva dos erros alimentares.
A Sociedade Brasileira de
Endocrinologia e Metabologia - SBEM e a Associação Brasileira de Estudo sobre a Obesidade - ABESO querem implantar em todo Brasil o projeto “Escola Saudável”. Além da avaliação do peso e altura das crianças em nível escolar e da qualidade da merenda das cantinas e lanchonetes, o projeto pretende levar aos profissionais cursos de capacitação e material educativo com noções de nutrição, alimentação saudável e estímulo à prática de atividade física.
Exagero deve ser combatido
Criança gorda deixou de ser sinônimo de saúde há muito tempo. Por isso, os pais devem ficar atentos ao comportamento dos pequenos que podem resultar em excesso de peso, como consumo exagerado de condimentos (maionese, catchup), fast-food, guloseimas e frituras. O endocrinologista Geraldo Santana afirma que o ganho de peso excessivo, antes do 4 anos, pode implicar em aumento do número de células adiposas (de gordura), e não apenas do tamanho delas, causando obesidade de mais difícil controle nas fases adolescente e adulta. O médico observa que a recusa à pratica de esportes competitivos, isolamento, alteração de humor e agressividade podem ser conseqüência da rejeição social devido ao excesso de peso. Também o fato de crianças dormirem pouco ou mal durante a noite pode ser um reflexo de um baixo nível de atividade física
durante o dia.
As avaliações pediátricas
são muito importantes neste aspecto. O endocrinologista afirma
que, quando nos gráficos de crescimento o peso da criança
aumenta desproporcionalmente em relação à altura,
já podem ser tomados alguns cuidados. No entanto, ele observa
que, mesmo quando o pediatra identifica a obesidade e encaminha para
o especialista, ainda pode haver relutância. Um estudo britânico
demostrou que os pais têm dificuldade de ver e reconhecer a
obesidade dos filhos, sobretudo quando também são gordos.
Em crianças obesas, 33% das mães e 57% dos pais disseram
que o peso delas estava normal. Somente 25% dos pais reconheceram
que os filhos eram obesos durante a entrevista. Esse fato costuma
atrasar o diagnóstico e início do tratamento, aumentando
os riscos de complicações e problemas psicológicos.
Preocupada com o crescimento
da obesidade infantil a dona de casa Simone Gonçalves Tomé, 32 anos, já arrumou uma maneira de a filha Sofia, 4 anos, ter prazer em atividade física. Aos 6 meses a pequena Sofia já deliciava na piscina, quando a família ainda morava nos Estados Unidos, país onde a obesidade é considerada um problema de saúde pública. “Fiz balé a vida toda e meu marido também pratica esportes” conta Simone. Além da natação, três vezes por semana, Sofia se entusiasma ao vestir o uniforme do balé. “Acredito que quem faz atividade física é mais saudável, mais alegre e aprende melhor. Sofia tinha crises de asma e bronquite. Hoje, percebo que o organismo dela está mais resistente”. Simone também preocupa-se com a alimentação das filhas e, diariamente, oferece verduras, legumes e frutas. “Não acredito em forçar nada, o importante é a gente dar exemplo”. A sexta-feira é dia combinado para comer sanduíche.
Sem Gordura
Atitudes contra obesidade
• Imponha disciplina de horários à criança
para alimentar
• Acostumá-la desde pequena a comer fruta e legumes
• As guloseimas não precisam ser abolidas do cardápio, mas não
devem ser oferecidas diariamente
• Faça um acordo com a criança e eleja um dia da semana para as guloseimas ou sanduíche
•Introduza alimentos menos atraentes (legumes e verduras) em forma de brincadeira
• Sorteie uma verdura ou legume para ser experimentado no cardápio
• A amamentação até os seis meses de idade ajuda a
prevenir a obesidade
• Prefira os legumes amassados e não batidos
• Crianças deve tomar 200 ml de leite, três vezes ao dia
•Evite passar mais de 4 horas sem alimentar
• Reduza o tempo da criança em frente à televisão e
ao computador
• Elimine o hábito de comer em frente à televisão
•Combata o consumo exagerado de alimentos tipo fast-food
• Elimine o uso de condimentos calóricos como maionese e catchup
• Não agrade a criança com alimentos calóricos e guloseimas
o tempo todo
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