Fonte: Jornal Estado de Minas
- Domingo, 25 de julho de 2010
Caderno
BEM VIVER - Matéria de capa
Na mira da Anvisa
Agência Nacional de Vigilância Sanitária cria regras para que a sociedade esteja alerta sobre os perigos do consumo de bebidas e alimentos com elevadas quantidades de açúcar, gordura e sódio.
Vanessa Jacinto
Informação detalhada
Quem faz suas escolhas alimentares com base nos conteúdos das propagandas ficará menos exposto aos efeitos nocivos do excesso de nutrientes como açúcar, gorduras saturadas e trans, além de sódio. Coma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que estabelece regras para a publicidade de alguns alimentos, a população terá garantido, na opinião de Beatriz Carvalho, vice-presidente do Conselho Regional de Nutricionistas de Minas Gerais, o acesso a informações corretas sobre alimentos que, por sua composição, se consumidos em excesso representam riscos à saúde.
Segundo a especialista, o consumo elevado de açúcar, gordura e sódio está associado ao aumento dos casos de obesidade, sobrepeso, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares. “Oexcesso de peso já atinge em torno de 46% da população brasileira. Nós, dos conselhos federal e regionais de nutricionistas e das associações de nutrição, participamos ativamente da campanha para regulamentação da propaganda de alimentos, justamente porque acreditamos no impacto positivo dessa medida na formação e educação alimentar da população. Sabemos que, ao fazer suas escolhas de consumo, muitas pessoas levam em conta os conteúdos das propagandas, as ofertas nos supermercados e os dizeres nas embalagens dos produtos. Esses locais devem, então, garantir informações corretas para que o consumidor exerça sua liberdade de escolha bem informado”, avalia.
Beatriz destaca que a população precisa ter garantido seu direito de acesso a alimentos saudáveis e, para isso, são necessárias medidas em várias áreas. Na produção de alimentos, ela lembra que é preciso incentivar ainda mais a agricultura familiar. Segundo ela, os pequenos produtores produzem cerca de 70% dos alimentos que os brasileiros consomem e têm possibilidade de produzir com menos agrotóxicos, preservando o meio ambiente e oferecendo alimentos mais frescos e saudáveis.
Também são importantes mais recursos para programas de controle do uso de agrotóxicos da Anvisa e de financiamento para produções orgânicas ou agroecológicas. Na comercialização, é fundamental criar programas e redes de consumo que façam esses produtos, naturais e saudáveis, chegarem de forma mais direta ao consumidor.
Recursos
Na opinião da especialista, ações de educação alimentar e nutricional que ajudem na conscientização das pessoas para adotar modos de vida mais saudáveis são outra medida fundamental. Segundo ela, nos últimos anos, vários programas e ações, principalmente do governo federal, têm incentivado a produção e o consumo de alimentos saudáveis, a exemplo do aumento crescente de recursos para a agricultura familiar e a nova lei da alimentação escolar. “Precisamos de ações de educação alimentar e nutricional em diversos espaços, especialmente nas escolas e desde o ensino infantil, quando os hábitos estão sendo formados. Essas ações devem ocorrer também nos serviços de saúde, pois é na saúde que as consequências da alimentação inadequada aparecem, reduzindo a qualidade de vida da população e onerando o sistema de saúde. Precisamos também de publicidade positiva para a alimentação saudável. Isso é responsabilidade não apenas dos governos, mas de toda a sociedade”, completa.

Entrevista Alice Carvalhaes, nutricionista do Instituto Mineiro de Endocrinologia
Qual a importância da determinação da Anvisa no âmbito da saúde pública?
Alguém tem que colocar um freio nos hábitos alimentares incorretos. Quanto mais órgãos e profissionais envolvidos nisso, maior será a dimensão. Conscientizar as pessoas é o primeiro passo. As doenças crônicas não transmissíveis são responsáveis pela maioria das mortes em todo o mundo e, com uma alimentação saudável, é possível prevenir boa parte delas.
Você acredita no impacto dessa determinação na redução da obesidade e, consequentemente, na redução de doenças coronarianas e diabetes?
Sim, porém a longo prazo. Não acredito que as pessoas vão deixar de consumir esses produtos de cara, mas vão pensar duas vezes antes de comprá-los e isso implicará redução desses males. Acredito que os maiores beneficiados serão as futuras gerações. O impacto será semelhante ao causado pelas advertências ao cigarro. Há 50 anos, as pessoas fumavam por moda e desconheciam os prejuízos que tinham ao fazer isso. Hoje, o cigarro continua sendo vendido. Existem muitos fumantes, mas quem escolhe fumar sabe das consequências. Até uma criança sabe os riscos de fumar. As pessoas estão mais informadas e, se não houvesse uma campanha vetando o incentivo ao tabagismo, com certeza o número de fumantes seria infinitamente maior.
Pensando numa melhor qualidade da alimentação do brasileiro, que outras medidas deveriam ser tomadas?
O incentivo aos alimentos integrais. Embora eles sejam menos processados e refinados, são mais caros e inacessíveis para o consumidor. Porque, se eles dão menos trabalho e geram menos custos para os produtores? Pão, macarrão e arroz estão presentes na maioria das refeições dos brasileiros e, se os integrais fossem mais baratos, proporcionalmente ao custo que geram para as empresas, seriam mais consumidos pela população e o consumo de fibras seria maior.
Além de ações governamentais, que são importantes para proteger a população de uma indústria de alimentos muitas vezes vilã, é preciso consciência dos consumidores. Na sua opinião, o que fazer para que essa consciência se desenvolva?
Nutrição deveria ser matéria de escola. Hoje, a alimentação da criança é reflexo da alimentação da família. Se a família come mal a criança não tem outro exemplo. A escola teria uma grande influência nesse caso. Uma criança que aprende a se alimentar corretamente será um adulto que transmitirá isso para suas gerações.
O principal vilão da alimentação do brasileiro é a qualidade dos alimentos ou as quantidades ingeridas?
Os dois. Existem pessoas que comem pouca quantidade, mas escolhem tão mal que consomem mais calorias do que quem come muito, mas escolhe bem. Quantidade e qualidade devem sempre andar de mãos dadas, em perfeita harmonia.
Resolução ainda tem falhas
Embora seja considerada uma importante medida de saúde pública, a resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que dita novas regras para a publicidade de alimentos no país ainda deixa a desejar, especialmente no que se refere a propagandas voltadas para o público infantil.
Segundo Beatriz Carvalho, vice presidente do Conselho Regional de Nutricionistas de Minas Gerais, as crianças têm vivido a influência sistemática de personagens e mensagens lúdicas usadas para induzir ao consumo de alimentos nem sempre saudáveis. “Neste público, que é mais vulnerável e está formando seus hábitos alimentares, também já se verifica a elevação dos casos de excesso de peso e doenças cardiovasculares”, alerta.
A Proteste Associação de Consumidores também lamenta que, depois de quase quatro anos de discussão, a Anvisa tenha deixado de fora da resolução o controle destinado especificamente às crianças.
Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da entidade, acredita que a publicidade de alimentos dirigida às crianças tem uma grande parcela de responsabilidade com o sobrepeso, justamente ao influenciar as más escolhas alimentares e estimular o consumo excessivo de alimentos industrializados não saudáveis. “Entendemos que essa faixa etária requer proteção contra a publicidade abusiva e antiética, justamente para prevenir o surgimentos de doenças crônicas”, diz.
Ela explica ainda que, apesar de todos os manifestos contra o texto que foi publicado, a Anvisa não levou em consideração as contribuições encaminhadas para encontrar o melhor modelo que traduzisse a necessidade de regulamentação sobre a publicidade destinada ao público infantil. “A maioria dos produtos testados pela Proteste e que são destinados às crianças se vale de cenário fantasioso, linguagem infantil, personagens de desenho animado e outras crianças como modelos nas embalagens, demonstrando que o objetivo das empresas é conquistar as próprias crianças, notadamente pela análise das embalagens e dos brindes oferecidos.”
Para piorar, além do apelo, os testes com produtos realizados pela entidade demonstram que os problemas realmente existem. Maria Inês afirma que as análises dos alimentos quase sempre constatam que os fabricantes não respeitam as rotulagens e abusam do uso de açúcares, sódio e gorduras (ver tabela), representando verdadeiro perigo para a população.
A psicóloga Elizabeth Magalhães Freire, de 44 anos, que o diga. “As propagandas de alimento vão direto no ponto fraco do consumidor e ascrianças são muito assediadas”, afirma. Para fugir dos apelos, ela tem que se manter firme no propósito de adotar uma alimentação mais simples e saudável, eliminando ao máximo o consumo de alimentos industrializados na hora das refeições.
Junto com os filhos João, de 11 anos,e Henrique, de 8, ela eliminou do cardápio os embutidos, biscoitos, refrigerantes e outros produtos que, embora pareçam apetitosos, podem provocar risco à saúde, justamente por promoveroganho de peso.
Com a adoção de uma alimentação mais caseira, preparada com pouca gordura e pouco sal, ela vai consolidando novos hábitos alimentares nas crianças. “Eles já comem mais frutas e verduras,o mais velho emagreceu e passamos a fazer várias substituições mais saudáveis.”
Produtos e características
De acordo com análises feitas pela Proteste, vários produtos disponíveis nos supermercados apresentam problemas como excesso de açúcar, sal, gorduras e aditivos em diversos deles, conforme tabela abaixo:
- BOLO PRONTO E BISCOITO DE CHOCOLATE: Muita gordura, gordura trans e muito açúcar
- PETIT SUISSE: Não é enriquecido como afirmam os rótulos e apresenta altos teores de açúcar
- BATATA CHIPS: Muito sal e acrilamida (aditivo)
- SORVETE DE CHOCOLATE: Excesso de açúcar
- PICOLÉ: Excesso de açúcar
- PAÇOCA: Presença de altos níveis de aflatoxina (aditivo)
- IOGURTES E BEBIDAS LÁCTEAS: Excesso de corantes artificiais e de açúcar
- FARINHA LÁCTEA: Excesso de açúcar
- GUARANÁ: Excesso de açúcar e de edulcorantes (versão diet/light)
- ACHOCOLATADO: Excesso de açúcar
- GELATINA: Excesso de açúcar , corantes amarelo crepúsculo e tartrazina
- REFRIGERANTES: Excesso de açúcar
- CEREAL MATINAL: Excesso de açúcar e de sódio, níveis não recomendáveis de gordura total ou gordura saturada, quantidades insuficientes de fibras alimentares
- COMPLEMENTO ALIMENTARÀBASEDE CEREAIS: Excesso de açúcar e inadequação
nutricional para a idade que são recomendados
- BISCOITO CREAM CRACKER E ÁGUA E SAL: Presença de gordura trans
- OVOS DE PÁSCOA: Excesso de gordura e de açúcar. Agressiva publicidade dirigida ao público infantil
Veja também:
Propagandas de alimentos não saudáveis terão mensagens de alerta.
|