Você tem fome de quê?
Dr. Geraldo Santana - Médico endocrinologista
Todo mundo já experimentou em algum momento da vida uma sensação
de fome real. É uma função importante do nosso
organismo que serve para nos lembrar de reabastecer nossos estoques
de energia e nos proteger da inanição.
Entretanto, nem todo desejo de se alimentar
se aplica ao conceito acima. Muitas vezes, o alimento é usado
para satisfazer uma necessidade emocional mais profunda, uma
espécie de fome emocional.
Para a maioria das pessoas, sentimentos de tristeza, saudade, carência
afetiva e ansiedade podem ser amenizadas com alimentos que simbolizem
algum tipo de prazer, conforto, alento ou recompensa. Uma espécie
de mimo que a pessoa se oferece para compensar um sentimento desagradável.
Estes símbolos podem estar relacionados a várias
situações: alimentos preferidos na infância,
sobretudo àqueles preparados pelas mães; bebidas
e guloseimas usadas em festas e outros momentos felizes da família;
quitandas que eram saboreadas em companhia agradável ou
mesmo comidas sofisticadas associadas a momentos especiais e de
glamour. Uma vez ou outra não tem problema usar este recurso,
afinal o paladar é uma forma saudável de prazer.
Mas se este recurso for usado sem controle a situação
pode evoluir para uma compulsão alimentar com toas as suas
consequências.
Veja abaixo algumas características
que diferenciam os tipos de fome:
| Fome física |
Fome emocional |
| Aumenta aos poucos |
Aparece de repente |
| Não é muito seletiva: “vontade
de comer” |
É seletiva: “vontade
de tomar sorvete” |
| Aparece com mais de 3 horas após
uma refeicão |
Ocorre em qualquer hora |
| Melhora temporariamente ao beber água |
Continua após um copo de água |
| Desaparece quando estamos satisfeitos |
Pode persistir mesmo quando se come
bastante |
| Traz satisfação depois
que se come |
Traz culpa depois que se come |
Além disso, sabemos que alimentos como doces, chocolates
e alguns tipos de carboidratos realmente proporcionam uma sensação
de bem estar por aumentar indiretamente os níveis cerebrais
de serotonina, uma espécie de antidepressivo natural. Até aí,
tudo bem. O problema é que – como qualquer outro tipo
de estímulo sensorial – quando utilizado em excesso,
o organismo tende a reajustar o nível de percepção
e necessitar de doses cada vez maiores para proporcionar o efeito
desejado. Este é o mecanismo responsável por grande
número de compulsões.
Se a fome emcional esta relacionada a sentimentos
de carencia afetiva, desconforto ou vazios existenciais, uma abordagem
importante é recorrer a técnicas de autoconhecimento
como a psicoterapia além de recursos que amenizem a ansiedade e
a depressão. Considerando que algunns pacientes possuem
estes quadros devido a desordens da neuroquímica cerebral, o uso
de medicamentos também pode estar indicado. A abordagem cognitiva-comportamental
pode ser de grande utilidade no sentido de identificar e corrigir
pensamentos e crenças erradas sobre a comida e seu significado.
Do ponto de vista prático, quando estivermos diante de uma
fome emocional e tentarmos satisfazê-la com comida, devemos
lembrar que vamos ingerir calorias extras, que não foram
solicitadas pelo nosso corpo e que provavelmente não teremos
sinais claros de saciedade. Nesta situação, algumas
dicas são interessantes:
1) não
se prive: comer seu alimento preferido, ainda que
em menor quantidade, é melhor do que ficar pensando nele
o tempo todo;
2) tente reprogramar seus alimentos de conforto
e recompensa, procurando se alimentar com comidas mais saudáveis quando estiver feliz
ou em companhias agradáveis;
3) encontre outras formas de prazer além
da comida. Assistir a um bom filme, ler um livro interessante,
receber uma massagem,
ouvir músicas, tomar um banho quente, caminhar ao ar livre,
conversar ao telefone, praticar um hobby, brincar com seu bichinho
de estimação...
As opções são infinitas. Use sua criatividade
e em pouco tempo você terá sua própria lista
de alternativas para seus momentos de fome emocional.
Ref: Mindless
Eating - Brian Wansink
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