A decisão da Anvisa, ignorando os argumentos da comunidade médica
e as necessidades dos consumidores, restringe as opções
terapêuticas para o tratamento da obesidade em um expressivo número
de pacientes que necesssita de apoio farmacológico no controle
do excesso de peso.
Os anorexígenos em questão - anfepramona, femproporex e mazindol - estão no mercado há dezenas de anos e não houve nenhum estudo ou fato novo que justifique esta suspensão. A prática clínica tem demonstrado a eficácia e segurança dos anorexígenos quando prescritos de forma adequada e com supervisão médica. E este longo prazo de experiência com a medicação passa a ser mais importante ao vermos que nos últimos anos alguns medicamentos "mais modernos" aprovados pelas agências reguladoras foram retirados abruptamente do mercado devido a efeitos colaterais graves que apareceram com o passar do tempo.
A sibutramina, disponível no mercado há quase 15 anos, também tem sido amplamente utilizada com perfil semelhante de resultados e boa tolerância pelos pacientes. A nova exigência de que o paciente possua doenças associadas e complicações para sua prescrição, implica em, muitas vezes, esperar o aparecimento de comorbidades para somente então começar a tratar a obesidade. Isto ignora completamente a premissa de atuar preventivamente a fim de se evitar o agravamento da doença e, consequentemente, suas complicações.
Se avaliarmos apenas a média estatística de emagrecimento nos estudos científicos, de fato os anorexígenos podem parecer pouco eficazes, sobretudo sob a ótica de profissionais sanitaristas. Entretanto, quando analisamos pacientes individualmente, como acontece no encontro do médico com o paciente no consultório, vemos que, enquanto para uns os remédios não fazem qualquer efeito, para muitos pacientes há um grande benefício com repercussões positivas não apenas para a saúde como para a auto-estima da pessoa.
Muitos pacientes, por mais motivados que estejam, não conseguem emagrecer apenas com dieta e exercícios físicos e necessitam de medicamentos para adequado tratamento do excesso de peso. Infelizmente, a atitude da Anvisa desconsidera este princípio tão importante do tratamento da obesidade e cria uma real dificuldade aos pacientes obesos ao impedi-los de ter acesso às principais opções para um tratamento medicamentoso de apoio.
A suspensão destes medicamentos poderá propiciar
o aparecimento de terapias alternativas ineficazes, lançamento
de emagrecedores ditos “naturais” de procedência
e composição desconhecidas além da possibilidade
de um "mercado negro" de anorexígenos. Pode
ainda levar a um maior número de indicações
desnecessárias de cirurgia bariátricas. Outra
consequência possível é o aumento da incidência
de doenças e complicações
da obesidade.
Finalmente, é importante ressaltar que o tratamento
bem conduzido da obesidade não se baseia apenas em
medicamentos. Caso esta suspensão seja mantida,
caberá aos médicos especialistas intensificar
os recursos terapêuticos já existentes como
estratégias nutricionais e metabólicas, mudanças
cognitivo-comportamentais além do uso de outros medicamentos
e procedimentos que proporcionem a redução
do apetite, melhora da saciedade e aumento do gasto energético.