::Diabetes
Dra. Flávia Pieroni - Médica endocrinologista
Caroline Fernandes - Nutricionista

O que é o diabetes?
O diabetes mellitus é uma doença caracterizada por uma deficiência de insulina causando um aumento da glicose. A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas, um órgão localizado no abdome logo atrás do estômago. A ação principal da insulina é levar a glicose do sangue para dentro das células. Quando existe uma diminuição da produção ou um comprometimento da ação da insulina, a glicose acumula no sangue e começa a provocar os sintomas do diabetes.

O diabetes é muito freqüente?
Hoje, estima-se que 7,6% da população tenha diabetes e, o que é mais preocupante, quase a metade não sabe que possui a doença. No mundo inteiro, há pelo menos 130 milhões de diabéticos e a expectativa é que em 2025 este número chegue a 300 milhões. Este aumento está relacionado ao maior número de pessoas com excesso de peso e obesidade, ao crescente sedentarismo, à maior expectativa de vida da população em geral e à maior sobrevida dos pacientes diabéticos.

Quais são os tipos de diabetes?
Os principais tipos de diabetes são o tipo 1, o tipo 2 e o diabetes gestacional. O diabetes tipo 1 aparece geralmente antes dos 30 anos e existe uma deficiência quase completa de insulina. Anticorpos do próprio organismo promovem uma destruição progressiva das células do pâncreas. Representa aproximadamente 10% dos diabéticos. O diabetes tipo 2 aparece geralmente após os 40 anos, tem forte fator hereditário e freqüentemente está associado à obesidade e ao sedentarismo. Neste tipo, a insulina pode estar até aumentada, mas não funciona adequadamente: é o que chamamos de resistência à insulina. Representa aproximadamente 90% dos casos de diabetes. O diabetes gestacional é uma situação transitória que ocorre apenas durante o período da gestação devido aos hormônios da gravidez que aumentam a glicose e diminuem a ação da insulina. Na maioria dos casos, a glicose normaliza após o parto.

Quais são os sintomas do diabetes?
O excesso da glicose no sangue e na urina provocam os principais sintomas do diabetes: perda de peso, beber muita água e urinar muito. No diabetes tipo 1, estes sintomas aparecem de maneira abrupta e intensa podendo até chegar ao coma se não tratado rapidamente. No diabetes tipo 2, os sintomas ocorrem de maneira lenta. Outros sintomas freqüentes são visão turva, tonturas, fraqueza, impotência e dormências.

Como é feito o diagnóstico do diabetes?
Através da dosagem de glicose pelo exame de sangue. Uma glicose de jejum maior que 126mg% ou uma glicose ao acaso acima de 200mg% confirmam o diagnóstico de diabetes.

Como é o tratamento do diabetes?
O tratamento do diabetes se apóia em quatro pilares principais:

- Dieta
- Exercício físico
- Medicamentos
- Educação do paciente.

Na dieta é recomendável uma alimentação balanceada evitando os açúcares de absorção rápida. Os exercícios físicos ajudam a diminuir a glicose e melhoram a ação da insulina nas células. Os medicamentos, quando necessários, podem estimular a produção de insulina pelo pâncreas, melhorar a ação da insulina já existente ou ainda diminuir a absorção intestinal da glicose. Nos diabéticos tipo 1, é necessária a aplicação de injeções de insulina tendo em vista que a produção de insulina pelo pâncreas está muito reduzida. E, por último, a educação do paciente, que envolve os cuidados que o diabético deve aprender em relação ao diabetes, sobretudo no que se refere à automonitorização, ou seja, o paciente aprender a medir a sua glicose através de aparelhos portáteis e ajustar a dose de seu medicamento conforme as orientações que recebeu do seu médico.

E os adoçantes? São seguros para a saúde?
Os adoçantes são alternativas valiosas para o controle da glicose, pois permitem uma substituição do açúcar ao invés de uma simples restrição e ainda contribuem para a perda de peso em pacientes obesos. Os adoçantes, durante vários anos, têm demonstrado sua grande segurança e seu uso hoje é também permitido para crianças e alguns tipos até para gestantes. Os vários tipos e combinações mais modernas de adoçantes se adaptam às variações individuais de paladar.

Os produtos diet podem ser usados por diabéticos?
Os lançamentos da indústria alimentícia de versões com isenção de açúcar vêm crescendo muito não só no número de alternativas, mas principalmente na qualidade e paladar dos produtos. Este fato, evidentemente, contribui para o tratamento (mais nítido nos casos de diabetes em crianças) permitindo um estilo de alimentação com menos restrições. É importante, porém, que seja avaliado com o médico quais os produtos mais recomendados para o seu caso porque os termos diet e light não se referem obrigatoriamente à restrição de açúcar e sim aos critérios para a modificação daquele alimento. Desta forma, podemos ter produtos diet ou light, que apesar da modificação em sua composição, ainda continuam tendo açúcar em sua composição.

Qual a diferença entre diet e light?
O termo Diet significa que o alimento foi modificado para atender a um tipo específico de dieta como, por exemplo, a substituição do açúcar pelo adoçante para os diabéticos e a retirada da lactose do leite para pessoas alérgicas à substância. Portanto, o fato de ser diet não significa que não contém açúcar. O termo Light indica que o produto tem menos calorias que o produto tradicional como, por exemplo, a maionese light. O fato de ser light também não indica necessariamente que seja isento de açúcar. A maioria dos alimentos light conseguiu a redução das calorias através da substituição do açúcar pelo adoçante e, portanto, é diet e light ao mesmo tempo, como é o caso dos refrigerantes. O importante é acostumar a ler os rótulos dos produtos e adequar as compras ao plano alimentar prescrito pelo médico ou nutricionista.

O que é a contagem de carboidratos?
É uma das estratégias usadas na terapia nutricional do diabetes, que contabiliza os gramas de carboidratos consumidos nas refeições proporcionando maior flexibilidade de horários e melhora da estabilidade da glicemia. Em diabéticos - em uso de insulina - permite estimar a quantidade de insulina necessária para aquela refeição baseado na relação insulina/carboidrato de cada indivíduo. [Veja mais]

Como é possível saber a quantidade de gramas de carboidratos de um alimento?
Com o uso de tabelas fornecidas pelo nutricionista ou pela leitura dos rótulos dos alimentos. Hoje em dia, utilizamos softwares que já informam não só a quantidade de carboidrato dos alimentos, mas também o cálculo da quantidade de insulina a ser aplicada de acordo com a relação insulina/carboidrato daquela pessoa para cada alimento. Em refeições mistas, basta somar as unidades de insulina propostas para cada alimento e aplicar. Para exemplificar: 1 pão francês de 50g contém 28 g de carboidratos + 1 copo de leite com Nescau contém 32 g de carboidratos = 60g de carboidratos. Se a relação insulina/carboidrato desta pessoa fosse 1U/15g ele deveria aplicar 4u para essa refeição.

Qual é a relação insulina/carboidrato?
Ela varia de acordo com a pessoa para pessoa. Geralmente é definida pelo médico e ajustada conforme a monitorização glicêmica. Como regra geral, a relação insulina/carboidrato de adultos é de 1 unidade de insulina para cada 15g de carboidratos, portanto 1UI/15g. Já em crianças, esta relação fica em torno de 1UI / 20 a 30g CHO. Estes resultados podem variar muito dependendo do peso corporal, resistência à insulina, atividade física, uso de medicamentos e até mesmo do horário do dia.

Todos os diabéticos devem aprender a contagem de carboidratos?
Não, há pacientes que se adaptam melhor às dietas tradicionais. A contagem de carboidratos necessita de alguns pré-requisitos como, por exemplo, saber ler e escrever, ter noções de medidas caseiras, ter disciplina e principalmente condições de realizar a monitorização glicêmica domiciliar. Por isso, a adesão à terapia nutricional depende em grande parte da correta seleção dos pacientes.

Por que só nos últimos anos a contagem de carboidratos vem sendo mais utilizada?
Como a contagem de carboidratos está relacionada a um controle mais intensivo da glicemia, esta técnica ganhou mais impulso após os grandes estudos multicêntricos, que comprovaram os benefícios do controle da glicemia na prevenção das complicações crônicas. Em 1994, a American Diabetes Association destacou que a quantidade de carboidrato deve ser individualizada e que o foco da terapia nutricional deve ser a quantidade total e não o tipo de carboidrato. Em 2001, a Sociedade Brasileira de Diabetes lançou o Manual de Contagem de Carboidratos propondo as estratégias para sua aplicação e critérios de seleção dos pacientes. Além disso, o lançamento no mercado de canetas aplicadoras de insulina, insulinas de ação ultra-rápida e mais recentemente da insulina glargina melhoraram sensivelmente as condições para a utilização deste método.

O que é um glicosímetro?
É um aparelho portátil, que mede de maneira confiável a glicose do paciente a partir de uma gota de sangue extraída da ponta do dedo com um aparelho chamado lancetador. A gota de sangue é colocada sobre uma fita reagente descartável e o aparelho calcula em poucos segundos a glicose daquele momento. O glicosímetro é muito útil para que o paciente possa acompanhar a sua glicose em horários diferentes do dia e em situações especiais como febre, doenças, estresse e gravidez, quando os exames devem ser mais freqüentes. É um método prático, rápido, de custo razoável e fácil aprendizagem. Tem boa relação com a glicemia plasmática apresentando variação aceitável e é o método mais indicado no mundo inteiro para avaliação instantânea.

O que é um tratamento intensivo de insulina?
O tratamento intensivo geralmente se refere ao uso de múltiplas picadas de insulina ou uso da bomba de insulina com monitorização freqüente das glicemias capilares para o tratamento do diabético tipo 1. Estudos de grande relevância mundial mostraram que o tratamento intensivo diminui a incidência de complicações em diabéticos e, portanto, tem sido cada vez mais utilizado. O lançamento da insulina glargina e das insulinas ultra-rápidas sobretudo, com suas versões em canetas de aplicação contribuíram para a popularização desta forma de tratamento.

A insulina precisa ficar na geladeira?
Em situações de estoque e armazenamento, sim. Isto vale para as que estão na farmácia e as que ainda não estão em uso na sua casa. A insulina que está em uso pode ficar à temperatura ambiente desde que não seja exposta a temperaturas excessivas ou à ação direta do sol. Se preferir guardá-la na geladeira, utilize as partes inferiores e retire meia hora antes. A insulina não deve ser aplicada gelada, pois pode ficar mais dolorosa e, principalmente, NUNCA pode ser congelada.

O que são canetas de aplicação?
São dispositivos - em forma de canetas - que substituem a seringa permitindo a aplicação de insulina de forma bem mais prática, rápida e discreta. Utilizam refil de 1,5 ml (150 unidades) ou 3 ml (300 unidades) e agulhas especiais próprias para canetas.

Como age a insulina glargina?
A insulina glargina (nome comercial: Lantus) é uma insulina de ação ultralenta que tem como principais vantagens: liberação estável (sem picos de ação ao longo do dia) e duração de 24 horas, proporcionando um perfil semelhante à secreção basal do pâncreas normal. Pode ser usada por diabéticos tipo 1 e diabéticos tipo 2 em uso de insulina. Para o tratamento intensivo do diabetes tipo 1 necessita associação com uma insulina ultra-rápida na hora das refeições.

Como funciona uma bomba de insulina?
O Sistema de Infusão Contínua de Insulina, também chamado de bomba de insulina, é um aparelho portátil que contém um sistema computadorizado que injeta insulina ultra-rápida durante todo o dia conforme a programação do usuário e do médico. Um fino cateter fica aplicado no abdome do paciente e, na hora das refeições, o paciente tem que dar um comando para que uma quantidade extra seja injetada. Alguns aparelhos dispõem de um pequeno controle remoto que facilita os comandos. Com este sistema é possível ficar bem próximo da forma com que um pâncreas normal libera a insulina na circulação.

Quais as vantagens da bomba de insulina?
Permite um bom controle glicêmico mesmo com estilo de vida muito variável e refeições irregulares. Com a bomba de insulina, o paciente pode se alimentar na hora em que quiser com a facilidade da aplicação sem o inconveniente da seringa ou caneta. Em vários estudos, e principalmente, na prática clínica mostrou diminuição da ocorrência de hipoglicemias, além de melhorar o controle glicêmico.

Existem dificuldades na implantação da bomba de insulina?
Apesar de ser um equipamento computadorizado de moderada complexidade e de fácil aprendizado, o paciente precisa entender os fundamentos da bomba e para isso é necessário que ele tenha acesso a uma equipe com experiência no manejo deste sistema. É necessário também que tenha um acompanhamento nutricional para que aprenda a técnica de contagem de carboidratos e possa aplicar corretamente os bolus (doses extras de insulina de acordo com a quantidade de carboidratos da refeição). O preço do aparelho e dos cateteres é relativamente elevado, mas a satisfação dos usuários tem mostrado que, quando bem indicada, a relação custo-benefício é muito boa. Alguns fabricantes de bombas permitem que pacientes indicados por especialistas façam um teste de um mês antes de adquirir o aparelho.

Como é o controle médico do paciente diabético?
O acompanhamento médico procura não só manter as glicemias em níveis satisfatórios, mas também prevenir o aparecimento de complicações crônicas. A glicohemoglobina, ou hemoglobina glicosilada, é um exame também muito útil, pois permite avaliar a média da glicose dos dois últimos meses proporcionando uma visão mais panorâmica do controle. Além da glicose, é importante que seja avaliado sistematicamente a pressão arterial, o peso corporal, os níveis de colesterol e triglicérides, além de avaliações periódicas dos pés, dos rins, do coração e dos olhos.

O que é um holter de glicose?
É um aparelho que fornece um perfil contínuo de glicemias por um período de até 72 horas. Geralmente é colocado e retirado em laboratório e o sensor fica localizado no tecido subcutâneo. Mede continuamente a glicemia a cada 10 segundos e registra um valor glicêmico médio a cada 5 minutos.São realizadas, portanto, 288 medidas por dia.
As principais indicações para este exame são diabéticos mal controlados, diabetes instável, diabéticos tipo 1 gestantes ou que pretendem engravidar, diabetes gestacional e, diabéticos em diálise renal ou recém-transplantados.

Quais são as complicações do diabetes?
A glicose alta persistente pode provocar, com o passar dos anos, problemas em vários órgãos do corpo. As principais complicações atingem a circulação, os rins, os olhos e os nervos. O aparecimento destas complicações nos diabéticos pode ser evitado através de um controle rigoroso e um tratamento adequado da glicose.

O que é o Pé Diabético?
O chamado Pé Diabético é uma complicação crônica do diabetes mellitus. Apresenta perda de sensibilidade e/ou deficiência de irrigação sanguínea podendo ter deformidades, ulcerações e infecções que, em alguns casos, evoluem para a necessidade de amputação. É uma das complicações mais devastadoras do diabetes, responsável por 85% das amputações dos membros inferiores e 50% das internações hospitalares de diabéticos.

Como prevenir o Pé Diabético?
A melhor forma de prevenir as complicações crônicas é o bom controle glicêmico. Especificamente no caso dos pés, os pacientes diabéticos devem ficar atentos a alguma orientações como:

- examinar os pés frequentemente, com ajuda de espelho;
- avisar o médico se tiver calos, rachaduras, alterações de cor ou úlceras;
- vestir sempre meias limpas;
- usar sapatos que não apertem e sempre com meias;
- nunca andar descalço mesmo em casa;
- lavar os pés diariamente, com água morna e sabão neutro evitando água quente;
- secar bem os pés;
- hidratar os pés com creme;
- cortar as unhas de forma reta, horizontalmente;
- não remover calos, nem procurar corrigir unhas encravadas;
- procurar tratamento profissional.

O que é a cetoacidose diabética?
É uma complicação aguda causada pela deficiência grave de insulina em diabético tipo 1 com os quatro sinais típicos: hiperglicemia severa geralmente acima de 450 mg%, desidratação grave, elevação das cetonas na urina e no sangue com hálito característico e acidose. É uma complicação grave com risco de morte se não tratada adequadamente.

Quais são as causas da cetoacidose diabética?
Pode ser a primeira manifestação do diabestes tipo 1, geralmente causada pela demora em se estabelecer o diagnóstico. Outras causas são doenças infecciosas, interrupção do tratamento com insulina e uso de medicamentos que neutralizam a ação da insulina.

Como é o tratamento da cetoacidose diabética?
Tendo em vista a gravidade do caso são necessários cuidados intensivos onde se deve iniciar hidratação venosa vigorosa, insulina de ação rápida endovenosa, tratamento das condições associadas e reposição de bicarbonatos e potássio.

Existem perspectivas de cura para o diabetes?
Sim. Uma pesquisa recente no Canadá conseguiu bons resultados com o transplante apenas das ilhotas pancreáticas em diabéticos tipo 1, em que os pacientes ficaram completamente livres de insulina, mas em uso de medicamentos imunossupressores para evitar a rejeição do organismo às ilhotas. Pesquisas nesta área já estão sendo desenvolvidas em nosso país. Outra grande linha de pesquisa com possibilidades promissoras em várias áreas da medicina é o uso de células tronco, mas que ainda enfrenta algumas resistências do ponto de vista ético e religioso. Em vários centros no Brasil, inclusive em Belo Horizonte, cirurgiões especializados já estão realizando transplantes de pâncreas (isolados ou em associação com o transplante de rim) com ótimos resultados embora haja a necessidade do uso constante de imunossupressores. O diabetes é objeto de estudo de muitos centros de pesquisa e sempre estão sendo lançados medicamentos mais modernos e com menos efeitos colaterais para o tratamento, bem como aparelhos mais sofisticados para medição de glicose ou aplicação de insulina.